21 Jan Cruzeiro Seixas: 100 Anos para a Eternidade

janeiro, 2022
Cruzeiro Seixas: 100 Anos para a Eternidade
Dizem alguns que sou um surrealista ortodoxo na obra que vou realizando; aproveito no entanto a ocasião para esclarecer a quem queira ser esclarecido que o serei efetivamente, mas tão só enquanto não descobrir uma outra porta (…) Surrealista ou não surrealista? Que importa? A eternidade é hoje ou não será nunca.

Cruzeiro Seixas, A tentação continua, 1979
Aguarela e tinta da China sobre papel 46,3 x 53,9 cm
Ex-coleção Cruzeiro Seixas, doação João Meireles, coleção Fundação Cupertino de Miranda
Para Artur Manuel do Cruzeiro Seixas (1920-2020), o Surrealismo foi a única porta para esse mundo que não há. Um mundo de sonho, inquietude e libertação que vive em centenas de desenhos, pinturas, colagens, objetos, esculturas, poemas, contos e cartas pessoais ilustradas, sem esquecer os 42 volumes do seu “Diário não Diário”. A quase totalidade desta obra colossal mora na Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, onde o artista viveu entre 2012 e 2016.
Cruzeiro Seixas é uma referência incontornável da revolução surrealista em Portugal, mas, nas suas palavras, era “como as outras pessoas; fazia uns bonecos”, até porque não tinha “tempo nem dinheiro para pintar a sério.” Aqui a sério, só lhe poderiam “encontrar a alma – os que a tiverem”. A mesma que respira na eternidade do seu legado, hoje celebrado em Portugal e além-fronteiras. A exposição “O Sentido do Encontro”, a decorrer na Sociedade Nacional de Belas Artes até 26 de fevereiro, encerra o ciclo de comemorações do centenário do Rei Artur. Trata-se da maior mostra do artista em Lisboa, compreendendo 160 obras.

Feita com casco de pacaça e um objeto do mar, esta obra de 1953 foi emprestada à exposição “Surrealism Beyond Borders”. Doação Cruzeiro Seixas, coleção Fundação Cupertino de Miranda
No Museu Metropolitano de Arte, em Nova Iorque, a exposição coletiva “Surrealism Beyond Borders” exibe a escultura “O seu olhar já não se dirige para a terra, mas tem os pés assentes nela”. Patente até 30 janeiro, esta releitura do movimento surrealista pelo globo segue no mês seguinte para o Tate Modern, em Londres.

Cruzeiro Seixas, O último dia da existência do nada, 1986
Aguarela e tinta da China sobre papel 28,7 x 39,2 cm
Doação Cruzeiro Seixas, coleção Fundação Cupertino de Miranda
Em maio será finalmente inaugurada, na sede da UNESCO, em Paris, a tão aguardada mostra “Cruzeiro Seixas – Teima em ser poesia”. Organizada pela Fundação Cupertino de Miranda e enquadrada nas comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, esta exposição individual reúne 80 obras, além de documentos e tapeçaria. Um sonho do mestre das paisagens lunares que o adiamento ditado pela pandemia de Covid-19 impediu de ver concretizado em vida.
Na edição #11 da Feed, homenageamos o génio de Artur do Cruzeiro Seixas com o artigo “Indelible Expression of Soul”.